Reflexão sobre comportamento e ética no exercício da Fisioterapia

Antes de tudo, vamos reavivar o conceito de ética:

“Ética é um conjunto de valores sociais que identificam, qualificam e guiam princípios universais e crenças e ações humanas. A palavra “ética” vem do grego ethos e significa aquilo que pertence ao “bom costume”, “costume superior”, “portador de caráter” ou “modo de ser”. “

Trazendo a ética para o campo de atuação profissional na área de Fisioterapia, é possível uma divisão entre questões legais, que delimitam e balizam legalmente as atividades do Fisioterapeuta e questões morais, que se inclinam para o campo da filosofia e afetam o comportamento do profissional como responsável pela saúde e bem-estar dos seus pacientes e porque não dizer, das pessoas inseridas em determinados ambientes e sociedade em geral.

Para orientar a atuação dos Fisioterapeutas, o profissional deve conhecer e seguir o Código de Ética e Deontologia da Fisioterapia, estabelecido pela Resolução nº 424, de 08 de Julho de 2013 e criado pelo Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional.

“O Código de Ética e Deontologia da Fisioterapia, trata dos deveres do fisioterapeuta, no que tange ao controle ético do exercício de sua profissão, sem prejuízo de todos os direitos e prerrogativas assegurados pelo ordenamento jurídico.”

O Código de Ética do COFFITO deve ser do conhecimento de todo Fisioterapeuta, onde toda sua atuação profissional deve ser balizada pelos deveres fundamentais dos fisioterapeutas e suas obrigações e limitações enquanto profissionais da área de Fisioterapia.

A resolução que estabelece o Código de Ética e Deontologia da Fisioterapia está estruturada em XI capítulos:

  • Capítulo I – Disposições Preliminares
  • Capítulo II – Das Responsabilidades Fundamentais
  • Capítulo III – Do Relacionamento Com o Cliente/Paciente/Usuário
  • Capítulo IV – Do Relacionamento Com a Equipe
  • Capítulo V – Das Responsabilidades No Exercício Da Fisioterapia
  • Capítulo VI – Do Sigilo Profissional
  • Capítulo VII – Do Fisioterapeuta Perante As Entidades De Classe
  • Capítulo VIII – Dos Honorários
  • Capítulo IX – Da Docência, Preceptoria, Pesquisa e Publicação
  • Capítulo X – Da Divulgação Profissional
  • Capítulo XI – Das Disposições Gerais

Cada capítulo é composto por um conjunto de artigos, onde constam as obrigações, regras, deveres e direitos dos Fisioterapeutas no exercício das suas atividades profissionais.

Por isso vale destacar novamente, que é fundamental que você como Fisioterapeuta tenha conhecimento amplo e irrestrito do Código de Ética e Deontologia da Fisioterapia, para que suas atividades profissionais sejam desempenhadas com ética e bons princípios morais.

Em relação do desenvolvimento dos padrões éticos nos profissionais da área, um ponto que vale a pena ser lembrado é em relação ao ensino da ética nas universidades e cursos da área de Fisioterapia. Pois é fundamental que além do bom conhecimento técnico, os profissionais estejam preparados para exercer a profissão com ética e comprometimento. Embora esse seja um tema abordado na grande maioria dos cursos de graduação com disciplinas específicas, ainda temos instituições de ensino que não possuem em seu currículo conteúdo direcionado para a ética no campo da Fisioterapia.

Além de abordar os padrões éticos do campo prático da atuação dos fisioterapeutas, o objetivo do artigo é provocar uma reflexão mais ampla sobre a ética, o comportamento e a atuação dos profissionais em relação aos seus pacientes.

Sobre fatores comportamentais na Fisioterapia

“O Fisioterapeuta possui uma formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, capacitado a atuar em todos os níveis de atenção à saúde, com base no rigor científico e intelectual. Detém visão ampla e global, respeitando os princípios éticos/bioéticos, e culturais do indivíduo e da coletividade.”

Esse é o entendimento da atuação do profissional de Fisioterapia segundo a Cartilha de Apresentação da Atuação do Fisioterapeuta no Sistema Único de Saúde. O que coloca os fisioterapeutas como responsáveis não somente pelo tratamento de patologias ou questões estéticas, mas também por oferecer aos seus pacientes condições de saúde que abrangem o corpo e a mente, como fatores psicológicos e comportamentais das pessoas.

Nos tempos atuais, o bem-estar mental e físico estão cada vez mais interconectados e dependentes um do outro.

Esse fenômeno social tem gerado uma busca crescente por um corpo saudável, uma boa qualificação física e um corpo esteticamente bonito, independente de idade, gênero ou outras condições genéticas ou fisiológicas. Porém, esses fatores não se limitam apenas ao campo físico ou estético das pessoas, mas influenciam e até mesmo, determinam o bem-estar e a própria felicidade dos indivíduos.

Nesse contexto, a Fisioterapia e outros campos de estudo da saúde tem evoluído e muito para atender essa demanda pela busca do corpo saudável e bem-estar. Da mesmo forma os Fisioterapeutas estão cada vez mais bem qualificados tecnicamente e tem ao seu dispor equipamentos e métodos cada vez mais modernos e inovadores.

Tudo isso é capaz de contribuir de forma relevante nos objetivos que um determinado paciente pode buscar com qualquer tipo de tratamento fisioterapêutico, como a cura de uma patologia ou um procedimento estético.

Porém no exercício da Fisioterapia e suas tantas áreas, ocorre de forma quase predominante, uma separação entre o sujeito e sua doenças ou patologia. Tornando o paciente um simples objeto a ser diagnosticado e tratado, sem atuação no campo psicológico e moral do sujeito.

Considerando que o bem-estar e saúde do paciente depende invariavelmente da harmonia entre corpo e mente, será que cabe ao fisioterapeuta abordar no tratamento questões psicológicas e comportamentais, como conforto, segurança, confiança, tranquilidade, entre outros?

Sabendo que problemas psicológicos como solidão, sofrimento e depressão,  afetam diretamente o corpo e a saúde do paciente e podem até mesmo influenciar o desenvolvimento de patologias físicas. Podemos entender que cabe sim ao profissional da Fisioterapia incluir dentro do escopo de sua atuação uma abordagem à fatores psicológicos. Até porque em boa parte dos casos, o bem-estar e qualidade de vida do paciente só irá ocorrer, quando fatores ou problemas físicos e mentais do paciente estiverem resolvidos.

Também podemos considerar o trabalho conjunto dos profissionais de Fisioterapia com outras áreas da saúde capazes de atender problemas psicológicos, como psicólogos. De qualquer forma, o fisioterapeuta não deixa de ter responsabilidade pela amplitude do tratamento que busca a harmonia entre corpo e mente do seu paciente.

Diante desse ponto de vista, combinado a uma crise epistemológica implícita no contexto dos dias atuais, é possível ampliar a ética no exercício da Fisioterapia, para além de um conjunto de regras e obrigações, como aborda o Código de Ética e Deontologia da Fisioterapia do COFFITO.

Podemos então passar a entender por ética, como sendo um compromisso com o entendimento do comportamento humano e a relevância da relação entre corpo e mente na qualidade de vida dos indivíduos. Onde, o exercício da ética na Fisioterapia passa a ser a busca da compreensão e solução de problemas físicos e psicológicos, bem como a manutenção da harmonia entre corpo e mente, na busca do bem-estar nas diferentes dimensões do sujeito como membro de uma sociedade.

Portanto, ser fisioterapeuta, em um contexto de complexidade crescente, não se restringe apenas em dominar e aplicar técnicas para melhorar patologias, mas sim, consiste em contribuir com soluções de problemas físicos e comportamentais, de uma forma que se configure como um bem amplo e pleno para o bem-estar e qualidade de vida das pessoas.

A partir dessa nova visão ética quanto a atuação profissional, o fisioterapeuta deve lembrar que seu paciente não possui apenas um determinado distúrbio ou patologia, mas sim um fenômeno complexo, com múltiplos níveis, inclusive não patológicos, e, como fenômeno, o evento deve ser tratado em toda a sua extensão, de forma humana.

Concluindo, entendemos que esse tema é bastante complexo e polêmico, por abordar fundamentos de toda educação e atuação profissional no campo da Fisioterapia. Mas é importante essa reflexão, principalmente considerando as mudanças de comportamento da sociedade que estamos passando. Essas mudanças têm impactado praticamente todas as áreas de atuação e não é diferente com a Fisioterapia.

Fique à vontade em compartilhar sua opinião sobre o tema nos comentários, como você vê a atuação do profissionais de fisioterapia para além do campo técnico?

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